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Comecei a praticar bodyboard por volta dos 13 anos. Cedo para a época – “Puto que é que fazes aqui?” disse-me o surfista, sobranceiro do alto do seu ego ferido pela facilidade com que os “esponjas” passavam a rebentação e disputavam as melhores ondas – mas muito tarde para a realidade actual, em que há crianças que dropam ondas antes de aprenderem a andar. O interesse pela fotografia surgiu uns anos mais tarde, por coincidência (provavelmente não), com a época em que percebi que com o bodyboard não ia alcançar mais do que momentos de pura e simples felicidade e a solução para a rinite alérgica. Com o alternar das marés e a redução nos anti-histamínicos , fui descobrindo que a fotografia também me podia levar a esses lugares preciosos na vida de um ser humano e ainda conseguia pagar as contas de uma vida sem glamour. Não se pode pedir mais. Sem fazer a mais pequena ideia de como ou quando isso aconteceu, decidi manter-me fiel a estas duas artes a que acrescentei mais tarde o bodysurf (vulgo carreirinhas).

Passados, mais coisa menos coisa, 30 anos do início desta história, pouco mudou na minha vida, excepto um casamento feliz, duas filhas e cerca de meio milhão de fotografias. Minudências que ocorrem em fracções de segundo e nos moldam ou deformam para sempre, conforme os casos e os azares. Se entretanto alguém tirar uma fotografia, podemos mais tarde recordar o que realmente (nos) importa.

Só que um dia, há sempre um dia, a moeda ao ar e por aí fora… estou nas Maldivas a fotografar para um cliente e um colega de profissão tira esta fotografia a que não atribui grande importância na altura, mas que guardei por respeito aos meus progenitores que nunca sabem muito bem o que faço eu nestas viagens  – a minha mãe diz que não percebe como é que tiro tantas fotografias e nunca apareço em nenhuma –  e uns meses depois, num flash (só podia) descubro que estava ali tudo o que tinha decidido fazer há três décadas: uma onda, um bodyboard, uma câmara fotográfica e o rosto coberto de protector solar e de preocupações que me acompanham desde tenra idade. No caso em apreço, a preocupação era legítima: o mais pequeno erro podia traduzir-se em ficar finalmente com os dentes direitos, depois de levar com três quilos de equipamento fotográfico na cara. Assim não aconteceu, o meu dentista pode ficar descansado que não lhe vai faltar trabalho, os pontos unem-se, tudo está bem.

 

Resultado final deste trabalho aqui

Fotografia do post por  Matt Pelican

Caixa estanque: Wave Solution Housings

Câmara: Canon 1Dx

Objectiva: Canon 70-200mm f4 L