vascos

Para quem não teve a sorte de ouvir o meu longo discurso (qualquer coisa como: “obrigado, boa noite, com licença”) no Sábado passado durante os Portugal Surf Awards 2017, em que tive o privilégio de receber o prémio carreira, fica aqui uma reflexão sobre estes 20 anos de trabalho em paralelo com a ANS – Associação Nacional de Surfistas.

Ainda há pouco tempo, procurando ANS no Google, este colocava em primeiro lugar a Associação Nacional de Sargentos e só depois vinha a Associação Nacional de Surfistas. Não querendo dizer que os sargentos se deixaram dormir na formação, os surfistas estão agora em primeiro lugar na pesquisa do Google. Make surf not war e essas coisas.

É preciso perceber que a ANS, a dos surfistas, é comandada actualmente pelo Chiquilin e o seu braço direito é o Cocas. O director de prova é o Pecas. O Campeão Nacional de 2017 é o Vasquinho que já foi Conguito, o fotógrafo oficial é o Mestre e o responsável pela produção o Rosinha e a tempos Rosette! Aqui não se brinca e o Google – que sabe tudo – também sabe isto. A ANS tem 20 anos, quase os mesmos que a minha carreira de fotógrafo de surf, e continua a ser exactamente aquilo a que se propôs no dia da sua formação: tomar conta dos surfistas profissionais. Tomar conta desta gente a quem corre o sal nas veias e que rege a vida pelo ritmo das ondulações, sabendo pouco de horários que não sejam os das marés, não é tarefa fácil, mas tem sido cumprida com inegável sucesso. O motor de busca não engana.

Eu que durante duas décadas não me desassosseguei com muito mais que a incidência da luz sobre a superfície do mar e uns anfíbios que por lá passam com as suas pranchas de vez em quando (sim, o mar é maior que os surfistas), fico agora com este prémio nas mãos, que na altura de o receber me deixou sem palavras, mas com a responsabilidade de olhar para trás e contar um pouco do meu percurso que acabou por estar claramente ligado ao da ANS, fosse por estar presente nos seus eventos (curiosamente sempre a fotografar para outras entidades) ou pelo contacto permanente com grande parte dos surfistas profissionais portugueses em busca das melhores imagens.

To make a long story short – caem sempre bem umas palavras em estrangeiro – esta carreira definiu-se por momentos chave, como aquela fria manhã de Inverno em que ao fazer a Avenida da Índia ao volante do meu Renault 11 GTC Super, em direcção a Belém para mais uma jornada de 12 horas atrás do balcão a vender rolos e despachar revelações Kodak para mais tarde recordar, o cheiro do vento Leste a correr desenfreado Tejo fora e seus prazeres associados, me deram cabo da cabeça: adolescente tardio, cheio de certezas inabaláveis, mesmo perante a promessa de um lugar de gerente de loja e aliciado com mais um aumento no ordenado, a resposta veio sem hesitar: “não é isso que quero da vida”.

Pelo caminho conheci muita gente do mar, gente especial, que me mudou para melhor. Fora isso, fui uma vez a Espanha comprar caramelos daqueles que se colam gloriosamente aos dentes, umas 8 às Maldivas, 3 ao Hawaii, 5 a Marrocos, 3 ao México, 503 à Ericeira e a mais uma data de sítios fotografar o mar e o surf. Anteontem fui ali à Caparica filmar um guerreiro do mar e apanhar conchas para oferecer a quem me atura os silêncios. As minhas duas filhas queixam-se de excesso de praia, a aliança de casamento diz “maresia” e a minha sogra surfa mais vezes do que eu. Durmo pouco porque tenho manias com a luz. A família acha que eu não tenho juízo.

Que me desculpe a Nike, o Gustavo Santos e o Obama, mas o caminho está cheio de buracos e perseguir sonhos dá um trabalhão dos diabos e mais facilmente conseguimos dores no corpo do que abdominais definidos, um sorriso colgate e a liderança do mundo livre. 20 anos depois de ter mandado o emprego às favas, estou convicto que só é possível fazer este percurso enquanto fotógrafo de surf com uma dose generosa de estupidez racional (inteligência emocional para pobres). Explico melhor: ao longo do caminho não me faltaram sinais para desistir e ainda assim, de uma forma perfeitamente racional, insisti em trazer mais areia do que euros para casa. Parece e é bonito, mas não duvidem que a areia acaba por entrar na engrenagem dos dias.

O momento em que a ANS me atribui este prémio carreira é também, curiosamente, aquele em que os tais sinais ganham altivez de evidências e talvez por isso me tenha deixado tão surpreso e com pouco mais para dizer que um obrigado sentido. Ainda assim, mais que o reconhecimento, a homenagem representa uma energia bem-vinda para os próximos vinte anos e para os projectos em que mergulho agora: um filme, um livro, exposições e workshops. Tudo cozinhado ao sal, claro.

ANS, tratem de garantir que que os Surfistas continuam à frente dos Sargentos por mais 20 anos, talvez assim eu consiga convencer o Google a manter-me à frente do cantor mexicano. Bem hajam!

 

Na fotografia: Vasco Ribeiro a sagrar-se Campeão Nacional de surf pela quarta vez há dois dias e o mesmo Vasco, 11 anos antes, já de lycra de competição vestida.